BICO DE PENA (NANQUIM), MINHA ARTE, MINHA HISTÓRIA
Rildo Brasil e seu neto Gabriel Brasil
Numa roda de conversas dentro de sala de aula da UNIFESSPA, em Marabá, Pará, disciplina de Laboratório de Arte Brasileira II, o nosso professor Hélio Passos, nos instigou a contar um pude de como chegamos até este curso de Artes Visuais. Pediu que falássemos como e o quê, e quem nos inspirou na arte, então, segue um pouco da minha história com a pena/nanquim.
Sou nascido na cidade paraense de Velha Jacundá (já extinta). Vivi por lá até os meus 12 anos de idade. No ano de 1973, entrei para a escola, já no primeiro ano, tive contato com os materiais: lápis de cor, caneta, borracha e o caderno, principalmente o de desenho. Nessa época gostava muito de jogar futebol, minha brincadeira preferida (morávamos em frente ao campo de futebol da cidade), então passei a desenhar os jogadores de futebol de meu Estado, do Paysandu, clube que torço até hoje, depois os barcos chamados de marabaense, eles transportavam castanha do Pará para a Capital Belém do Pará. Meu tio era um dos que comandavam a embarcação, existiam muitos desses barcos, eu os via o tempo todo já que a minha vida era às margens desse grande rio onde eu pescava, passeava de canoa e tomava muitos banhos gostosos com minhas duas irmãs.
Éramos 7 irmãos, Eu, Rilvania e Rillene, os outros quatro eram muitos pequenos, por isso não levávamos para os banhos. Depois disso tive que partir para a cidade de Tucuruí, Pará, às margens do Rio Tocantins mesmo rio em que se situava Jacundá.
A partida foi por conta da construção da UHT, Usina Hidrelétrica de Tucuruí que depois de construída, formou-se um lago gigante que inundou milhares de quilômetros da floresta amazônica e algumas cidades às margens do mesmo rio.
Antes mesmo da formação do lago, a empresa responsável pela construção da UHT, indenizou várias famílias, algumas receberam dinheiro para sair de lá, outras receberam casas há alguns quilômetros da sede, numa localidade chamada de “arraia”, às proximidades da PA-150, rodovia estadual que acabara de ser construída e tinha nome de um peixe e por isso de um igarapé que passa por lá, afluente do Rio Tocantins.
Já em Tucuruí, tive contato com o cinema, televisão, revistas em quadrinhos e conheci vários heróis como tarzan, homem aranha, hulk e muitos desenhos animados. Tudo que conheci foi muito importante para a minha formação artística. Isso só veio confirmar minha vocação pelas artes.
Fui crescendo e também fui tendo outros contatos com desenhistas e pintores de letras de Tucuruí. Isso foi me despertando para esse lado, cheguei á trabalhar um tempo com isso. Então tive que fazer a mala para mais uma partida, dessa vez com 18 anos, tinha que viajar para a cidade de Marabá onde prestaria o serviço militar, o qual era um sonho meu.
Na caserna (quartel), também exerci o papel de artista. Era encaminhado para realizar serviços de pinturas e desenhos para minha companhia. Passei meu período de serviço militar e adotei Marabá como minha cidade. Como não tinha outra profissão, parti para a pintura de letreiro em ônibus, camisas (serigrafia), paredes e outros...
Passado algum tempo na escola, pois havia voltado a estudar, através de uma história em quadrinhos que tinha feito sobre a lenda do boto, meu professor Noé Atzingen, viu e me convidou para visitar a Casa da Cultura de Marabá, a qual ele era presidente, era o ano de 1989. Depois ele me convidou para ser o primeiro desenhista de lá. Minha felicidade foi grande, pois, lá eu tive contato com muitas coisas que eu via e vivia quando crianças. Foi lá que tive os primeiros contatos com os desenhos em bico de pena (e a tinta nanquim), do artista Augusto Morbach, também conheci as obras de seu filho Pedro Morbach (e o conheci pessoalmente), todas em nanquim.
Fiquei tão encantado com o nanquim, que não demorei muito e estava fazendo algo parecido com o que via. No meu primeiro trabalho usei a caneta bic preta, fiz uma castanheira. Fui gostando da técnica e fui produzindo. Em 1989, realizei minha primeira exposição no Hotel del Príncipe, aqui mesmo em Marabá.
Também foi na Casa da Cultura que tive contato com o cartum e a charge, minha outra paixão. Então, comecei minha produção para jornais da região. Mas isso é outra história.
Nesse mesmo período conheci o Senhor José da Silva Brandão, o Seu Brandão, jornalista e historiador. Ele me deu um livro que foi publicado pelo IBGE-Instituto de Geografia e Estatística, no livro havia desenhos de dois exímios desenhistas que utilizavam o bico de pena (nanquim). Mais uma vez fiquei bastante encantado e muito feliz. Dali por diante fui observando como os dois artistas Percy Lau (Peruano) e o brasileiro Barbosa Leite, se utilizavam da técnica e do nanquim.
Barco. Obra de Percy Lau
Com isso aprendi muito observando os trabalhos deles. Criei minha própria maneira de pintar com as penas, muitos quadros foram pintados por mim, também fiz muitas exposições em Belém, Tucuruí, Maranhão e uma coletiva em Berlim Alemanha.
Percy Lau, era um artista completo com a pena, dominava a técnica muito bem, todo o seu trabalho é perfeito. Já Barbosa Leite também era muito bom, traço diferente do de Percy Lau. Percy Lau, um artista peruano que morou em recife e depois foi para o Rio de Janeiro, se naturalizou brasileiro foi contratado pelo IBGE onde passou muito tempo como desenhista além de ilustrar livros e revistas brasileiras, fez exposição até em Paris e ganhou alguns prêmios.
O Seringueiro. Obra de Percy Lau
A obra de Percy Lau tem relevância nas artes plásticas do Brasil, contribuindo com uma obra pictórica para o patrimônio cultural brasileiro no diz respeito à função da arte como instrumento de preservação da memória cultural e histórico documental das atividades econômicas e culturais do Brasil no século XX. Sua obra é caracterizada pela simplicidade do traço sem contudo perder seu valor artístico e a precisão com que retratou através das mais variadas técnicas de desenho, bico de pena, guache e aquarela, o Brasil de todas as épocas. Sua obra nos remete diretamente ao universo mostrado por Jean Baptiste Debret já que ambos artistas eram dotados de uma profunda visão antropológica da sociedade na época em que viveram. O exercício de retratar todos os tipos de aspectos culturais do Brasil em todas as suas regiões, descrevendo com dignidade e simplicidade – sem com isso alterar o nível da apurada qualidade técnica de desenhista – nossa cultura e costumes, o folclore e as atividades econômicas desenvolvidas pelo homem do campo, fizeram da obra deixada por Percy Lau, um capítulo à parte nas artes brasileiras.
Barbosa Leite também foi um craque na arte do nanquim, Francisco Barbosa Leite, cearense que se radicou na baixada fluminense (RJ). Professor de Didática, pintor, desenhista e ilustrador. Foi o compositor da canção de exaltação à cidade de Duque de Caxias, que depois se transformou no hino da mesma cidade.
Foi editor vários livros de poesias além de ter um livro editado com seus desenhos e xilogravuras, cordelista, cronista, jornalista também era editor de revista. Também foi parceiro de Percy Lau quando ilustrou o livro do IBGE, Tipos e Aspectos do Brasil.
Então, tive a grata satisfação de ter esse livro em mãos e aprender muito com ele. Aliás, ainda está comigo, guardo-o com todo carinho, e por tudo isso o bico de pena passou a fazer parte de minha vida artística, e sempre que sou convidado dou vários cursos e oficinas de nanquim (bico de pena) onde for. E como meu trabalho e de outras artistas que praticam a arte do nanquim aqui em Marabá é retratando a natureza da Amazônia e sua história, recebemos o título de Capital do nanquim na Amazônia.
Floresta Amazônica. Obra de Rildo Brasil
Ribeirinho. Obra de Rildo Brasil
Fonte: http://tarauacanoticias.blogspot.com.br/2011/05/quem-foi-percy-lau.html
Rildo Brasil
Acadêmico do Curso de Artes Visuais
UNIFESSPA – Marabá - Pará